Cabelo crespo: ato político ou moda?

Os cabelos longos e lisos sempre foram sinônimos de feminilidade e beleza, ajudando a construir assim um padrão de beleza estipulado pela sociedade. Com isso, o cabelo crespo, reconhecido também como Black, proveniente de um movimento ocorrido nos anos 60 e 70 nos EUA, a favor desse tipo de cabelo, sempre gerou opiniões diversas e em algumas situações preconceituosas.

A identidade do negro está, sim, no cabelo; por isso, significa para o negro  o  mesmo  que assumir suas raízes. O cabelo crespo é um ato político e não moda. Diariamente,  deparamo-nos na mídia com o padrão de beleza feminina:  mulher magra, de cabelos lisos e longos, passando para a sociedade que o que foge desse padrão não representa beleza, como o cabelo crespo e curto.

Quantas mulheres negras, ao longo dessa caminhada de assumir seus crespos e cacheados, não se depararam com expressões latentes do preconceito racial? Recriminar nosso ato político é, sim, uma intolerância ao culto das nossas raízes. Quantas negras já não passaram por situações constrangedoras ao entrar em algum recinto com seus cabelos crespos e foram olhadas de maneira reprovadora, por brancos ou negros que não se reconhecem como negros?

Muitas mulheres passaram anos sem conhecer seu próprio fio de cabelo, por desde cedo, terem seus cabelos alisados por suas mães ou suas avós, com o chamado pente quente ou até mesmo pelas químicas, que se propagam na mídia, como a salvação para os cabelos crespos e cacheados.  Falando em mídia, ela tem seu papel de destaque tanto contra o nosso cabelo crespo, por ditar que não é esse o padrão de beleza, como também a nosso favor.

Quando digo que a mídia também nos favorece, falo do espaço que as mulheres negras, adeptas do Black, ganharam através das redes sociais e blogs, disseminando a importância de assumir o cabelo crespo, no cenário social e atos racistas a que o negro é submetido. Atos esses disfarçados e outros bem expostos, como a experiência que tive um dia desses, no centro do município do Rio de janeiro. Eu estava passando pela rua, quando, de repente, um senhor (a quem eu particularmente o identifico como negro, mesmo tendo o tom de pele mais claro que o meu), passou  no meu lado e mandou-me cortar o cabelo porque parecia uma vassoura.

Expressões essas – de puro racismo – identificam a aceitação do nosso cabelo crespo como ato político, pois renegamos a ditadura da moda do cabelo alisado e dizemos que vamos, sim, assumir nossas raízes e  as características do povo negro. Este, infelizmente, ainda sofre com o racismo diariamente nessa sociedade, ainda carregada nas suas concepções de que o negro é inferior aos brancos, incomodada em termos o tom da pele diferente, incomodada com nossos traços fortes e marcantes.

Com isso, identifico esse movimento de assumir os cabelos crespos, cacheados, enrolados ou Black Power, um ato político, ato esse de extrema importância atualmente em relação às conquistas do povo negro, que só deseja a igualdade racial. Deixamos de ter medo do que a sociedade vai achar e assumimos nossas características e nossos traços, almejando o mesmo respeito que qualquer outro cidadão tem e merece socialmente falando. Não desejamos ser lembrados apenas como um povo que já foi escravizado como mostram os livros de história, mas um povo liberto de todo esse racismo e preconceito que ainda assombram essa sociedade.

 Sugiro, ainda,  a  leitura do texto escrito  por  Aline   Silva para  o  blog  Blogueiras  Negras: O  uso do cabelo  natural como  ato político.

Camila  Moraes  –   Membro da Pastoral Afro-Brasileira Santa  Rosa de  Lima

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2 comentários sobre “Cabelo crespo: ato político ou moda?

  1. Realmente assumir o seu cabelo afro natural é assumir sua identidade. Nao é por moda. É uma reconstrucao da figura da mulher negra e sua identidade. Quando hj toco o meu cabelo ( e eu levei 40 anos pra que isso acontecesse), é como me redescobrir. E saber que sou livre e que hj sou uma referencia pra minha filha. Nao consigo me ver militante desta causa se nao estivesse passando por esta fase, que nao é so uma transiçao capilar, mas é toda uma transicao ao conhecimento de quem sou e de minhas raizes. Gratidao, é o que sinto!

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    • Joseane, ficamos felizes por sua visita ao blog! Precisamos aprender sobre nossa raça e isso é um processo lento. Parabéns por ensinar sua filha a ter orgulho de sua identidade.

      Andréa

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